outubro 31, 2003

detesto

Vou fazer um declaração social e politicamente incorrecta nos dias que correm: eu detesto o meu pipi. Abomino aquilo.

Agora é cool dizer que se gosta do pipi. Sim, ele tem jeito para aquilo. É um fodilh** do caral** - e riem-se alarvemente.

Se repararem nos comentários, 99% dos leitores que lá os colocam fazem questão de que 99% do conteúdo do comentário seja palavrões e asneiras. O teor dos escritos é tão bom ou melhor como a conversa entre dois camionistas que estiveram seis meses a atravessar um deserto qualquer onde não havia bordel ou qualquer outro meio que lhes pudesse servir o propósito de aliviar o apetite sexual. Depois há aquelas pessoas que dizem: mas não, vai ver bem; ele escreve muito bem e tem muita razão naquilo que diz. expressa-se é de outra forma. Isso também eu quando vou à casa-de-banho!

Não é que dizer uma boa asneira no momento apropriado não seja algo de superiormente realizador - já o dizia o MEC. Eu acho até que é terapêutico. Agora o pipi... francamente. Aquilo é uma mega-masturbação, onde o autor tem o seu recreio e se dá ao luxo de insultar os leitores e tudo o resto - que ainda se põem a especular sobre a sua identidade. O pipi é uma grande manobra de marketing - o livro prova-o - onde alguém, à custa da alarvidade mental de muita gente, vai fazer um dinheirão e onde tem o seu cantozinho de troça dos humanos que habitam o país luso.

(curioso, pode ter sido azar, mas no arquivo desapareceram os posts anteriores a 4 de setembro.... terei que ir comprar o livro para os ler?)

Publicado por scheeko em 01:11 AM | Comentários (2) | TrackBack

outubro 30, 2003

ablog!=?

Ando estranho. Acho eu.
Decidi remodelar aqui a casa, um bocadito. Do lado direito retirei links de blogs que, infelizmente, estagnaram no tempo. Do lado esquerdo comecei a acumular links para os posts de que mais me orgulho, ou que me deram particular gosto em escrever. Pus ainda um índice para a narrativa que estou a fazer sobre a minha experiência nova-iorquina.

Está a quase a fazer 4 meses, este blog. Só agora é que notei que os posts não têm títulos...

Publicado por scheeko em 02:21 AM | Comentários (3) | TrackBack

outubro 27, 2003

e se for?

E se for?
E se fores? Será? És?
Dizes-me? E se for só um bocadinho?
Não, diz-me com a tua voz. Quero ter quase a certeza.
Será? Será que és?
Nem um suspiro?
Nem um...?
E se me beijares?
Será, porventura?
Que ando aqui a fazer...
Que faço eu aqui?
Será no surreal?
Será?
Quero explicar-te.
Queres saber?
Ah! Ponto.

Publicado por scheeko em 11:01 PM | Comentários (0) | TrackBack

a.a.

António Arrão nasceu em 1947 na remota aldeia de Guisado, no norte do país. Cedo compreendeu que a sua vocação era a da apanha da giesta na Serra do Gerês, labuta para a qual se preparou psicologicamente durante os anos em que frequentou a escola primária. Mas foi a pesca do bacalhau à linha, em alto mar, que, por ironia do Destino, lhe ofereceu sustento para o início da sua prolífica vida.

Na sua viagem inaugural, apesar de verde conseguiu pescar uma invejável quantidade de bacalhau, só ficando atrás do mais experiente bacalhoeiro. Com isto ganhou boa reputação entre os homens do navio e junto do capitão. No decorrer das seguintes viagens apaixonou-se pela cozinheira do navio, cujos olhos era a única parte do corpo que via, através do orifício por onde passavam os pratos. Na sua décima viagem compreendeu que, apesar dos indícios que a qualidade da confecção do pescado e das batatas já davam, o nome da cozinheira - José, ou simplesmente Zé - não vinha de Maria José. Zé era o nome dum cozinheiro; o que nunca ficou esclarecido foi se a Zé tinha sido sempre o Zé, ou se o Zé tinha substituído uma eventual cozinheira chamada Zé. Os olhos eram muito similares, no entanto.

Não recomposto desta desilusão António Arrão quis se suicidar, mas o capitão não permitiria tal coisa a bordo do seu navio. Deixou-o, então, num iceberg do mar do norte, com um penico e um exemplar d'Os Lusíadas e prometeu passar por lá no regresso da viagem para o levar de volta, caso tivesse mudado de ideias. Numa noite quente e estrelada, depois de Arrão ter chegado à conclusão de que efectivamente devia pôr termo à sua vida, um navio, que outrora fora conhecido por Titanic, chocou com o iceberg. Arrão foi arremessado contra o casco e foi parar dentro de água, de onde foi salvo, já inconsciente pelo navio que socorreu os desgraçados passageiros do navio. Uma pena foi o navio ter ido ao fundo, já que não se pôde aproveitar nem os lençois de seda, nem os penicos de porcelana fina, que ainda hoje estão no fundo do mar.

Arrão acordou na América, mais precisamente no quarto andar do número 52 da 52ª rua, perto da 6ª avenida, em Nova Iorque. Isto aconteceu aproximadamente dez anos depois do acidente no iceberg. O que se passou entretanto, ninguém sabe. Arrão acordou sozinho e no apartamento, ao lado da cama só havia uma pilha de livros cujo autor era, aparentemente, ele, uma garrafa semi-vazia de Marquês de Borba e um post-it que tinha escrito: "Não posso viver mais contigo sem saber se estás em coma, ou simplesmente a dormir."

O pobre bacalhoeiro do Guisado, saíu de casa, naquela estranha cidade, ligeiramente entorpecido e dirigiu-se ao SoHo. Entrou na primeira cafetaria que encontrou e pediu uma dezena de panquecas e maple sirup, o qual desastrosamente entornou sobre um guardanapo de papel que se colou ao seu sobretudo, deixando uma mancha que se assemelhava a Leonardo da Vinci apanhando gladíolos na Pampa. Foi aí, em 1978, que, segundo Jordan Greenpuff, teve início a carreira de um dos mais produtivos artistas plásticos do século XX. António Arrão mudou o seu nome para Andy Warhol, casou com Yoko Ono e assassinou o anterior marido desta. Foi simulada uma morte por envenenamento, para esconder o seu actual paradeiro, mas que, segundo as minhas investigações, são os calabouços da prisão de Sing-Sing.

Publicado por scheeko em 10:45 PM | Comentários (4) | TrackBack

outubro 26, 2003

à chuva - l'hiver II

A chuva caía incessantemente. Era fim-de-tarde de um dia de semana. Nem eu nem tu tínhamos de regressar a casa e as responsabilidades de estudante... que esperassem umas horas. Rumámos à baixa e ao sair da entrada do metro, pouca escolha tivémos. A chuva continuava a não dar tréguas e por isso enfiámo-nos logo na Brasileira. O escuro lá de fora era trazido para dentro, pelos vidros, e ampliado pela já natural escuridão do café. As luzes, muito amarelas, reflectidas nos vidros e espelhos, salpicam as mesas e os clientes e, de certo modo, aquecem-nos. São o suficiente para nos vermos uns aos outros.

Sentámo-nos. Tu pediste um chá e uma torrada. Eu um galão e pastel de nata. Depois mudaste o teu pedido: em vez do chá, também querias um galão. Sempre me fascinou o galão. Não só pelo calor afável que transmite no inverno, mas pela sua forma física. O copo, comprido, contrasta com todos os outros suportes de café e derivados. A colher, igualzinha às pequenas, à excepção de um cabo muito maior. Porquê? Não sei.

Sorríamos parvamente um para o outro, enquanto contávamos os pormenores do dia de cada um. As maiores inutilidades foram criteriosamente descritas como se de factos científicamente relevantes se tratassem. Soltaste uma gargalhada quando cocei o olho e a lente foi lá para trás e deixei de ver. Acabámos o lanche. Tem de ser. Tinha de ser. Lá fomos. Saímos porta fora e a chuva... lá estava. Que se lixe! E fomos pela rua fora até ao Cais do Sodré. Sem sequer acelerarmos o passo.

Foi. Será?

Publicado por scheeko em 11:32 PM | Comentários (2) | TrackBack

abismo

Não me considero uma pessoa nem sádica, nem mórbida, nem violenta - excepto quando me cruzo com algum responsável da Sociedade Portuguesa de Autores.

Agora a sério: eu não me considero uma pessoa nem sádica, nem mórbida, nem violenta. Mas desde pequeno que, de vez em quando, uma sensação de atracção pelo abismo, me invade o corpo. Não é daquele tipo de atracção ligado às vertigens; é mais profundo, mais obscuro.

Desde sempre que por vezes dou comigo a pensar como seriam as coisas se todas as pessoas do mundo desaparecessem e eu ficasse sozinho. Como é que eu reagiria numa situação de catástrofe natural. E se estivesse na guerra? Ou se um amigo ou amiga próximo adoecesse mortalmente? São tudo coisas terríveis que ninguém quer que lhe aconteça, nem aos seus pares; tudo coisas que nenhum ser racional quer conhecer; tudo coisas que eu não quero que me aconteça. Mas... há um qualquer sentimento subliminar que me faz despertar a curiosidade para estas situações.

Quando era criança, de vez em quando, nestas divagações, pensava o que aconteceria se um dos meus pais morresse. O meu pai morreu. Não é nada bom, garanto-vos, e o acontecimento abalou muito esta casa. Mas ainda assim, estes estranhos impulsos que vivem lá escondidos no subconsciente, de repente, teimam em saltar cá para fora. Espero que não sejam mais que isso: impulsos do subconsciente. Espero que nunca tomem outra forma, mais real. Será só uma característica individual? Ou é da espécie?

Publicado por scheeko em 10:38 PM | Comentários (0) | TrackBack

l'hiver

Yep, é de vez. Chegou o Inverno.
Desta vez não é uma ameaça, é mesmo a sério. Chegaram a chuva e o frio, o cinzento e o vento, os trovões e os relâmpagos. Não é que não tenha aproveitado o Verão, mas as saudades ficam. Por outro lado, também é verdade que já sentia falta do inverno.

O início de tarde cinzento e molhado, depois de uma almoço aconchegador, que nos leva a sair de casa protegidos, fugindo das gotas mais grossas, para ir domingar para uma qualquer exposição no CCB. Depois corremos a uma pastelaria qualquer para bebermos algo quente e comermos um pastel de nata. De regresso a casa, sento-me em frente à televisão, com a minha mãe e por vezes o meu irmão, recordando momentos em que a família fora maior, mas que do mesmo modo, aproveitava aqueles finais de tarde para filmes entremeados de conversa, em frente à lareira. O Natal avizinha-se, mas ainda não temos de aturar o marketing peganhoso da festividade. O quentinho das casas entranha-se-nos no corpo e, enfiando a cabeça nos ombros, rodando-a ligeiramente, inclinada, sobe-nos um arrepio pela espinha - é o conforto, a sensação de que estamos protegidos.

Acho que sou uma pessoa com muita sorte.

Publicado por scheeko em 01:26 AM | Comentários (2) | TrackBack

outubro 25, 2003

ir ao cinema

Eu gosto muito de ir ao cinema. Mesmo muito. Porém, devido a razões variadas, é raro ir a salas de cinema. Ontem fui ver o Kill Bill; nunca tinha visto um filme do Tarantino no cinema e decidi que tinha de ir. Antes tinha visto o Catch Me If You Can, talvez em Maio, e antes desse, provalvemente em Fevereiro, o Sinais.

Não é para armar em intelectual da borra, mas ontem lembrei-me de algumas das mais fortes razões porque não vou ao cinema, já para não falar do preço e de possíveis condições técnicas longe de óptimas. Ontem tive de assistir ao filme com um grunho a comer as suas pipocas atrás dos meus ouvidos e a comentar todas as cenas e mais algumas. Até pedir para se calar tivémos de saber que achava que o filme ia ficar para a história e que quando a Uma Thurman esposteja 88+2 soldados à espadeirada, aquilo não é real.

Publicado por scheeko em 03:21 PM | Comentários (1) | TrackBack

outubro 23, 2003

o jpp tem piada

"Numa reunião sobre o multilinguismo e o multiculturalismo, duas palavras quentes em vésperas do alargamento, discutiu-se a sinalética como alternativa a ter cartazes do tamanho de uma parede com inscrições em duas dezenas de línguas para tudo. Houve, no entanto, reservas quanto à sinalética para identificar os quartos de banho das senhoras e dos cavalheiros porque a distinção saias-calças parece ser entendida como confusa e sexista. Como acho que não me elegeram para discutir a sinalética dos quartos de banho, propus a representação estilizada, em nome dos bons costumes, dos órgãos sexuais masculinos e femininos para identificar as portas. Sem sucesso. Parece que também não é inequívoco."
in Abrupto

O JPP tem muita piada.

Publicado por scheeko em 07:01 PM | Comentários (2) | TrackBack

outubro 22, 2003

sinal divino

Imaginem que Deus quer dar um sinal da sua presença. Fazer-se notar a um mortal eleito para tal. Porque razão? Isso é lá com Ele, mas atentemos ao sinal em si. Desta feita, o Senhor não escolhe enviar um anjo como fez a Maria, nem aparece em sonhos. Tão pouco usa o truque da voz grave e cavernosa, levemente pausada, como quando falou com Abraão e tantos outros.

Não, desta vez, depois de eleito o destinatário do sinal, Deus deposita-lhe vinte e cinco mil milhões de contos na sua conta bancária. Depois de ver confirmado que o depósito não foi engano de ninguém, aliás, foi depositado em notas num cofre nocturno de um banco da Av. da Roma, o feliz humano compreenderá então que tal gesto, veio directamente do céu. Ele foi abençoado com a brisa da glória divina e, ao contrário dos que como ele já haviam sido, está brutal e estupidamente rico. Até poderá distribuir dois ou três mil contos pelos pobrezinhos!... Que alegria!

Só que... Há um problema! Tal quantia de dinheiro não passa despercebida! Que fazer agora? O fisco?! Como explicar que foi uma dádiva divina? Oh não! Que desespero! Já estou a ver: "Sim, claro. Isso foi o que os colombianos disseram da última vez. Mas eles trouxeram charutos ao passarem por Cuba! O senhor nem isso!"

Resumindo: Senhor Deus, quando quiser ter tamanho acto de bondade, ponha as notas debaixo do colchão. Eu não me importo com o alto.

Publicado por scheeko em 07:09 PM | Comentários (2) | TrackBack

outubro 19, 2003

your fault

A culpa é tua. Só tua. De mais ninguém. Tu és o culpado.
Tinhas todo o poder de decisão em ti, mais, tinhas o dom de conseguires fazer as coisas sem grande esforço. Tu é que deitaste a perder, tu é que desperdiçaste tempo. Vê se ainda consegues compreender isso a tempo. Depressa. Volta ao que eras.

Publicado por scheeko em 09:45 PM | Comentários (5) | TrackBack

outubro 17, 2003

viagem

Quando a Europa se alargar, ou quando tiver algum tempo, depois do alargamento acontecer, vou comprar um chasso por 80 contos e vou daqui até ao báltico - s. petersburgo. Vai ser bom. Vai ser uma viagem e pêras. Não sei se vá sozinho. Eu gosto de viagens solitárias, mas uma desta magnitude... não sei. Tenho de pensar. Além disso, escolher um parceiro de viagem não é fácil; aliás, é impossível - a viagem é que acaba por escolher o parceiro na pessoa que escolhermos levar connosco.

Uma coisa que nunca percebi é porque é que as pessoas se suicidam, exceptuando aqueles que são doentes mentais, ou casos de eutanásia - que não deixam de ser discutíveis. Será que há algum sofrimento tão grande que nos queira fazer sair daqui? A minha opinião é duvidosa, porque, para mim, nada há melhor que a vida. Sempre disse para mim mesmo: se algum dia estiver numa de me suicidar e o físico me permita, vou para o tibete, ser monge, ou homem santo, na índia. A pé.

Espero que não fira susceptibilidades.

Publicado por scheeko em 10:46 PM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 16, 2003

sobre uma paixão

Muitos dos que me conhecem sabem que Nova Iorque é, para mim, algo de muito especial. Os que não me conhecem assim tão bem e lêem o blog, depois desta segunda parte da minha crónica sobre a cidade que nunca dorme perguntaram-me: "mas tu tens uma tara por aquela cidade, não é?"

É. Não é bem uma tara, é uma paixão assolapada. Porquê? Nem eu sei bem. Dizem-me que mal eu começasse lá a viver, havia de perder este amor. Talvez. Só lá estive duas semanas. Não posso dizer grande coisa; e foi como turista, não como um verdadeiro habitante. Mas não creio que isso vá acontecer, quando para lá fôr viver. Eu também sou um apaixonado de Lisboa e, embora não viva lá, sempre lá fui frequentemente desde que nasci e agora, quase todos os dias - vejo Lisboa com os mesmo olhos, com o mesmo coração.

Há cidades que me dão doses de felicidade intrínseca. Há outras que ainda dão mais qualquer coisa: é o caso de Nova Iorque. Não são só os edifícios, nem as pessoas, nem os parques, nem a vida artística, nem a vida corrente, nem as mercearias, nem os bairros supra-nacionais, nem os cachorros quentes, nem o café, nem as luzes, nem o trânsito, nem a sensação de grandeza. Não é só isto que me torna um admirador da cidade.

É mais qualquer coisa, simples e suave, mas ao mesmo tempo latejante e persistente. É um cheiro, uma sensação. É uma emoção: uma profunda e avassaladora emoção. Um sentimento de pertença ao mundo e de sua posse, um sentimento de originalidade, um sentimento de investimento naquilo que vale a pena. Será? Não sei? Isto que disse clarifica alguma coisa? Absolutamente nada. Mas... quem sou eu? O que é um electrão?

Há coisas complicadas de se saber... Parece pretensiosa esta minha maneira de descrever a relação que tenho com uma cidade. Peço desculpa. Só digo mais uma coisa: há uma força que me impele a dizer... a minha cidade. É minha...

Estranho.

Publicado por scheeko em 11:35 PM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 15, 2003

egoísmo

- Olá! Estás bom?! Desculpa lá ter chegado atrasado... É que...
- Não faz mal. Não te preocupes. Ainda bem que vieste; precisava mesmo de falar contigo.
- Então, conta lá, o que se passa? Qual a urgência?
- Bem sabes... é que...
- Deixa-me só pedir um cafézito, se facha vôr. Oh! Não se importa de chegar aqui? Era uma bica, po'favor. Vá segue.
- Bem é que a Sara, como é que te hei-de dizer...? Também não é nada de especial... posso dizer já...
- Diz homem! Que te vai na alma?
- Ora cô-licença, aquistá a bicazinha. Mais alguma coisa senhor? E o senhor? Também não? Muito bem.
- É assim, sabes que a Sara e eu não namoramos assim há tanto tempo...
- Um ano, não é?
- É é
Tit-at-turiri-ri-ru-ri - aha - tit-at-turiri-ri-ru-ri
- Só um minuto, não te importas que atenda pois não?
- Nã...
- Tou? Não, no café, com Afonso. Diga? Ah, mé...! Esqueci-me! O quê? Não, não foi de propósito. Sim mãe. Eu sei mãe. Deixe que eu procuro uma farmácia de serviço. Não mãe. Eu sei que o pai fica aflito do estômago sem eles. Eu VOU buscá-los! Não, não telefone nada ao tio Alfredo, deixe-o lá em paz. Ok mãe. Sim mãe. Até logo. Beijinhos...
Esqueci-me completamente dos remédios do meu pai, vê lá tu, com a farmácia mesmo ali, ao lado da faculdade. Tou cada vez pior. E a minha mãe... ai ai... bem... desculpa lá. Estávamos onde?
- Não te preocupes. É que sabes estas coisas põe-me nervoso. Já a Sara ter ido morar lá para casa. Não é que tenha problemas, até sabe muito bem ter companhia e gosto mesmo da dela... Mas é como se estivéssemos quase casados e só tenho 26 anos... Não estou preparado...
- Oh! e eu 25 e ainda moro com os meus pais. Tens é uma vida óptima...!
- Não me queixo, mas isto do compromisso. E se não é com a Sara que eu quero passar a vida inteira?
- Bem, deves saber, que hoje em dia isso....
- E eu quero um compromisso sério e quero dizer que sim e gosto muito dela mas.... não sei...

Caiem três pratos no chão e partem-se, ao mesmo tempo que entram uma data de pessoas no café e o autocarro apita lá fora, por entre a chuva.

- AHH! Que susto! Estas coisas dão cabo de mim... Não aguento isto, ainda hoje ia morrendo ao sair de casa! Mas, íamos, ah!, sim.... Pois. Essas dúvidas assolam qualquer um.
- Eu sei que sim, mas tu sabes quão indeciso eu sou.
- E queres que eu te ajude a tomar a decisão?
- Não.
- É que sabes, não sou a pessoa mais indicada...
- Mas eu não quero...
- E além disso, estas coisas têm que ser os próprios a tratar. Neste caso tu.
- Já disse que não quero!
- Ah bom... ok... desculpa. Aía, sabes uma coisa, a Joana quer que eu vá viver com ela. Mas diz que tenho de ser mais responsável e que se quero tenho de me mudar até Janeiro! Não sei o que hei-de fazer... Pareço tu!
- João, vou-me casar.
- Não sei se leve já as coisas de lá de casa. Sabes como as coisas são, ela pode torcer o nariz e não...
- JOÂO! EU VOU-ME CASAR!
- Ah... pois... óptimo... ainda bem... bem... quer dizer... olha... vou-te dizer uma coisa... e não te esqueças...é mesmo importante e tens de ter cuidado. Chega cá: o casamento - não - é - irreversível! As crianças é que são...

Publicado por scheeko em 08:46 PM | Comentários (4) | TrackBack

outubro 14, 2003

suspiro

as pessoas inteligentes e cultas não têm, necessariamente, os parafusos todos apertados

Talvez seja a frase mais inteligente que ouvi nos últimos tempos, dita por uma pessoa que tem muita razão em quase tudo o que escreve e escreve, como se toda a razão estivesse nela.

É triste ver como se desperdiçam tempo e recursos na inutilidade. Faz-me pena ver a quanta importância que se dá à incompetência e à ignorância. Mete dó ver que, neste país, tanto talento é desperdiçado.

É que há pessoas maravilhosas. Pessoas com dons inimagináveis, qualidades quase sobre-humanas, mas que sózinhas não viverão. É que remar contra a maré é uma coisa, agora se lá dentro ainda vêm tubarões esfomiados que destroem tudo, então é impossível. E muitas vezes estas pessoas fecham-se e não revelam cá para fora a beleza que têm dentro de si. E somos nós que ficamos a perder, acreditem...

Publicado por scheeko em 11:06 AM | Comentários (5) | TrackBack

outubro 13, 2003

Nova Iorque III

Nova Iorque - Segunda Parte

Manhattan é uma ilha com uma forma aproximadamente rectangular de 12 km x 5 km.. À parte da baixa, é uma cidade topográficamente moderna: a todo o comprido há as avenidas (10) que são atravessadas, perpendicularmente, pelas ruas (mais de 100). As localizações são dadas pelos cruzamentos das ruas com as avenidas. Apenas uma rua sinuosa, em forma de S, quebra a simetria da organização ordeira das vias: é a conhecida Broadway. Geralmente este nome é logo associado aos teatros e musicais, mas a zona onde se encontram estas casas de espectáculos é apenas uma pequena porção desta grande avenida, na altura em que se cruza com a 6ª avenida, na famosa Times Square. Na baixa, já podemos encontrar ruas curvas, tão típicas na Europa, quanto ausentes nas planificações modernas americanas.

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foto de David F. Gallagher

O metro é sujo. Antigo. Assustador. Mas por alguma razão sentia-me bem no seu interior, como que nas veias duma amada, na força viva de um animal. O metro está a tão pouca profundidade que a rua treme sempre que as composições passam por baixo de nós, que podemos ver através das grades que há nas ruas. É nas ruas que também se vêm as típicas chaminés de vapor. É na rua que se vêm os Lincolns. Na rua não se vêm carros estacionados. É só um fluxo, constante,
semi-ordeiro de carros. As limousines, os carros estranhos, os táxis - como nos filmes. É nas ruas que se encontra uma parte significativa da essência desta cidade. A mistura de pessoas edifícios é inexplicável. Os prédios lançam as suas sombras pelas ruas, mas dão ao sol os seus vidros para ele poder reflectir, como num cristal, uma infinidade de raios de luz. As pessoas numa forma semi-mecanizada, semi-humana deslocam-se de um lado para o outro, como formigas, numa procura de riqueza pessoal, mas (in)conscientemente comportando-se como seres simbióticos que fazem avançar, no plural, uma estrutura, uma sociedade. A comunhão, por vezes impura, é inegável e as pessoas relacionam-se de uma forma que eu nunca vi. Nova Iorque é a cidade da 5ª Avenida, da tecnologia, da novidade, do novo, do mais, mas também é uma cidade onde ainda há lojas (só) de chapéus, de barbeiros nas ruas mais movimentadas, de mercearias e délis. Para mim, a cidade é inexplicável e o turbilhão de palavras que por mim saiem só revelam a mistura de sentimentos que duas parcas semanas marcaram.

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foto de David F. Gallagher

Eu ainda vi o tapete de Miró, no átrio do World Trade Center. E depois voltei à cidade. Tinha de ser. Porque sim. Porque foi a única cidade onde vi um tipo de meia de nilon na cabeça e t-shirt de manga cava branca a admirar um quadro de Picasso; porque foi a única cidade onde uma pessoa totalmente estranha me ofereceu, no metro, um guia com as actividades culturais mais recentes; porque é a única cidade em que italianos, russos, ucranianos, israelitas, franceses, ingleses, portugueses, chineses... vivem em conjunto e choram os mortos comuns; porque é a única cidade onde vi um museu que sempre esteve pintado de branco, todo pintado de preto; porque é a única cidade onde vi uma missa às nove da manhã cheia de juventude. Mas também é verdade que não conheço o mundo todo.

(continua)

Publicado por scheeko em 02:46 AM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 12, 2003

novidades

Desta feita ando a fazer umas programaçõesitas em Flash e fiz uma pequena jukebox aqui para o blog. Vejam lá se funciona bem e digam qualquer coisa, sff. É aí no canto superior direito, onde diz, clique para entrar. Só convém é banda larga! Gracias!

Publicado por scheeko em 10:19 PM | Comentários (0) | TrackBack

outubro 08, 2003

propinas

Eu pertenço à minoria que não está contra o governo nisto do aumento das propinas (e nem sou PSD). Não vou fazer aqui nenhuma declaração enorme sobre os meus motivos, até porque já o tenho feito aqui. Mas há um pequenino exemplo de que me lembrei, de que quero aqui deixar e que revela a hipocrisia de quem se revolta contra as propinas por serem socialmente injustas:

- se o custo real médio de um aluno no ensino superior andar à volta dos €4000/ano (o que é mais do que razoável) e um aluno pagar de propinas €856, então paga cerca de 25% do custo da sua educação ao estado.

- na cantina do IST, uma refeição custa €1,80. Se o custo real da refeição for €5 (o que também é um valor muito razoável), então um aluno está a pagar 36% do custo da refeição! Se for um desterrado, mesmo que cozinhe no sítio onde está alojado todos os almoços e jantares, duvido que consiga obter um preço inferior a €1,80/refeição.

Proporcionalmente, uma refeição numa cantina é socialmente mais injusta do que as propinas, mesmo no valor máximo (se for um aluno que almoce todos os dias na universidade, durante 36 semanas - 70% do ano - tem de pagar €324, quase tanto como a propina antiga, que já em tempos também ouviu o não pagamos). E porque é que ninguém protesta contra os €1,80? Porque aí não se poderia ocultar tão bem o ridículo da situação como atrás do número 856.

Mais uma vez digo, se for para protestar contra a falta de condições de algumas instituições, contra a injustiça e insuficiência das bolsas, ou outras coisas realmente em falta, lá estarei. Para dizer que as propinas são socialmente injustas e elitistas, por amor de Deus...

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outubro 07, 2003

rankings

Todos os anos é a mesma coisa. Bla bla bla e o ranking das melhores. É ridículo!

Fazer um ranking das melhores escolas não só não é ético, como apenas funciona como uma estratégia de marketing para os colégios privados - marketing do piorio porque é falso.

Classificar o S. João de Brito como a escola que teve a mais elevada classificação média por aluno nos exames nacionais é verdade; classificar a escola S. João de Brito como a melhor escola nacional não é verdade.

Toda a gente minimamente informada sabe como é que estas coisas funcionam: meu menino, não tens boa média... RUA! E se os pais das criaturinhas forem generosos (leia-se €, $, Visa ou MasterCard) e elas continuarem nas escolas, caso sejam de risco, vão fazer exames aos liceus públicos, que apenas têm de os recolher. A minha mãe foi aluna do Sagrado Coração de Maria em Lisboa e as coisas funcionavam assim à 30 e tal anos. Agora é a mesma coisa.

Os rankings só ajudam o lobby do ensino privado. É publicidade de borla. E o estado que pague.

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outubro 02, 2003

convocado

Fui convocado. O Felipão mandou-me uma carta. Convocado para o EURO2004. Uau! Bestial! E no evelope: A todos os Portugueses - Portugal precisa de si!.

Por amor de Deus! Mas o que é isto? Se ainda fosse para pedir colares de ouro e jóias para suportar a crise, uns tustos para ajudar a agricultura, uns apertos para as propinas... mas agora isto? Faz-se uma mailing list nacional a pedir aos tugas ajuda para a selecção? Ai ai ( *suspiro* ).

Publicado por scheeko em 01:29 PM | Comentários (2) | TrackBack